quarta-feira, 5 de março de 2014

..

Embonequei minhas melhores intenções nas palavras mais difíceis que pude pensar em usar, quis parecer grandioso e sábio, um poeta. 
Empoemei todas as receitas de bolo que achei pela frente, não bastasse o açúcar naturalmente utilizado no preparo das guloseimas, ainda por cima adociquei tudo com minhas próprias palavras meladas.
Resolvi que não poderia escrever escorrido feito macarrão, separaria bloquinhos de frases sem pontuação para que parecesse mais artístico. 
Nada de vomitar textos, pensaria no sentido do que gostaria de trazer a tona para quem quer que fosse ler, me prepararia para ser artista, sexo só com camisinha.
Além de tudo, achei que seria de bom gosto rimar: falar sobre céu e mar, sobre os afazeres do lar, sobre querer me jogar no infinito solar do sorriso molar de uma jovem que me fez parar e pensar em como é bom amar.

Me senti tosco, completamente perdido em exatidão, uniformidade, padrão, café com pão, arroz com feijão na casa do João. 

Amaldiçoei as rimas rimando sem querer.

Mordi a língua.
O sangue empapou as maldições, mas tudo bem, elas já tinham seu destino certo e a força do pensamento já trabalhava como cúmplice de qualquer forma.

A língua latejava.

De certo que tentava se equiparar a cabeça, que estava se fervilhando de tanto desejar a prolixidade pra si, pobre coitada.

Doeu!

Sem chances para loucuras desmedidas de paixões caóticas, sem chance para mais palavrões, sem chance para monotonia desvairada, doeu mesmo, sério!
É o tipo de coisa que precisa acontecer ao menos uma vez na vida de todo aspirante do que quer que seja: a dor da desilusão, a clareza da verdade nua e crua aos olhos tristes da frustração. Isso te faz pensar e repensar.
Pensar é bom... planejar é bom, executar com perfeição é bom, cinza é bom, ordem é bom, organização é bom, regras são boas... Quero ser bom, afinal ser bom é bom... certo?


Desisti de tentar ser o que quer que fosse, bom ou ruim, poesia é um saco mesmo.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Morcegos

"Onde ele estava com a cabeça? Ele não me conhecia, mas se conhecesse ouso dizer que sua cabeça estaria em mim."

Tão louco ser verdade, lacinante e cheio de dores, ou ao menos melhor do que ser de mentira. 
Morcegos aos montes, não sei bem a palavra que define o coletivo...
Por falta de termo técnico vou pelo popular: uma caralhada de morcegos, sugando as forças sem dó. 
Criou os bichos durante anos, nem se dando muita conta do que estava fazendo. Alimentava de memórias mal aceitas, aceitações mal lembradas e cargas d'agua dos mais variáveis temas, sobretudo os próprios.

Não é por acaso. 

Sempre gostou de sofrer, tornou desde cedo a melancolia artística. Asas demais pra pouco espaço, a ventania dos bateres fazia gelar a espinha. O coração quase chegou a congelar. 
Terminar nunca foi o seu forte por algum motivo que não lhe pertencia o entendimento. Era sempre posto frente a frustração do recomeço, o lamento do fracasso e com mérito, sempre com mérito.
Apesar de reinar o mundo da retórica, não conseguia prestar real atenção e tão pouco dar o valor merecido às próprias amarguras. Do que importa sua opinião dentre outras bilhões por aí?
Um grão de mostarda poderia esmagar-lhe as ideias, tão fracas e apagadas de certeza. Não saber era uma constante insistente, todos os lados tinham sua coerência menos seu próprio.

Desculpa!

A culpa sempre foi, continua sendo e sempre será sua, mesmo que consiga ver culpa em qualquer outro que seja. Ou falhou por ter feito pouco, ou por ter exagerado, por talvez não ter ajudado o bastante ou mesmo ajudado demais.
Seres iluminados e detestados, todos aqueles que não estivessem na categoria de primeira pessoa do singular.Iluminados por estarem a uma distância (Deus queira) segura do seu escuro interior, odiadas por inveja do riso sem motivo, que em geral se poderia observar de qualquer João regular. 

Odiava odiar.

Sonho manifesto era conseguir se enquadrar na segunda pessoa do plural ou o coletivo que fosse além da caralhada de morcegos sugadores de suspiro.

"Impossível ser feliz sozinho"

Ouviu centenas de vezes, entendia e concordava. 

Odiava concordar, mas concordava com esse ódio.

Ser um é, e sempre vai ser melhor do que ser mais. Questão de practicidade, menos letras "s" e por conseqüência menos dor de cabeça. 
Cada vez que tentava olhar para frente via fumaça e pontos finais, reticências gordas e malvadas. Três pontos finais para todos os lados, suruba de bolinhas pretas! 
O apego e consolo é, foi e até então continua sendo a mesma coisa: pequenas coisas. Para além delas espera-se que tenha alimento o bastante para tantos morcegos, a fome é injusta para qualquer que seja.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Blábláblática

Enquanto a vida passa correndo pelo cenário, os movimentos de seus olhos continuam lentos e cadenciados. É realmente muito frio no limbo entre a sensata sobriedade e os ares altos de uma boa viagem. Enquanto isso, acredito que cada um dos protagonistas, de cada uma das peças improvisadas da vida, continua achando que sua estrela brilha mais do que o próprio sol que o mantém aquecido.
Se enrolam em mantos de vaidade e egocentrismo, sem prestar muita atenção que no fim, os tons de verde só são variações de uma paleta de cores completamente limitada. Afinal, se todos os caminhos que eu peguei já estavam para acontecer de qualquer forma, só dependendo de reações minhas e nada menos do que isso, qual o grande lance sobre individualidade?

Engraçado pensar no assunto.

Na verdade, engraçado pensar e engraçado quem pensa sobre isso. Imagine que ao olhar para o lado, você pode facilmente se deparar com um outro antro de pensamentos e filosofias, um novo mundo, um universo inteiro circulando dentro de um corpo físico biologicamente muitíssimo parecido com o seu próprio corpo. A diferença entre nós todos, que somos tão iguais, é gritante! Gritante a ponto de ensurdecer as melodias da identificação.

Quem sou eu?

Quero ser eu mesmo ou quero ser tão bom como o outro? Ou talvez exatamente como o outro?

_Estacione na vaga da dúvida. Pare e sente, reflita e chegue a conclusão mais óbvia de todas as conclusões: Conclusão nenhuma.

Óbvio.

Óbvio como a obviedade pode ser, dura como a realidade pode ser, baseada na lei universal e irrevogável da relatividade absoluta de todos os pontos. Relatividade na limitação abstrata, porém presente, que dita a regra de que todas as alternativas são realmente possíveis por pelo menos um percentual mínimo de chance, sendo assim então planejáveis, e por tanto previsíveis.

Um nó realmente difícil de desatar acaba de nascer na cabeça.

Que cabeça?

Uma semente de dúvida que foi plantada fundo e foi muito bem regada, adubada por uma metralhadora de merda que ecoa por aí, vindo das mais diversas bocas. Cresceu, cresceu e agigantou mais ainda, chegando praticamente ao tamanho absurdo da falta de autoconfiança que um ser humano capaz pode ter.

Como você pode deixar de confiar em si? Você sabe que é maior do que todo o resto? Todo o mundo?

Todo mundo é ou todo mundo sabe?

Mas afinal de contas, você é protagonista do seu próprio seriado de TV (pra não deixar de ser piegamente clichê), como pode o protagonista dar errado e acabar mal na história?

POR MAIS QUE SE FODA, NO FIM VAI TER UMA LIÇÃO DE MORAL LINDA, UM CASAMENTO E TODOS OS PERSONAGENS DE TODAS AS TRAMAS REUNIDOS RINDO EM CÂMERA LENTA! EU SEI QUE SIM, JÁ VI ISSO MILHARES DE VEZES OU PELO MENOS UMA VEZ POR ANO NO FIM DA NOVELA.

CERTO?

certo.

Bom, chegamos ao ponto crítico em que foram tantas flechadas de tantos lados que o alvo vermelhobrancovermelhobrancovermelhobranco já está entupido de pontas. Já não suporta mais pedaços de pau pontudos, críticas construtivas, críticas infundadas, pitacos, conselhos ou café.

NÃO TEM ESPAÇO.

Nem pra choro e nem pra vela! Chega de formigas no meu bolo, de colegas pro meu pacote de bolacha ou de impostos para o dinheiro que eu ganho.

Chegamos em uma hora realmente difícil, uma hora em que contar as horas é hábito por ter que saber lidar com a distribuição das mesmas. Pouco tempo, pouco proveito, muita carga mas pouca carroça.

Falou tudo o que quis, falei, falou sem dó e sem se importar com o sentido do que quer que estivesse querendo dizer, falei. Sabia que no fim do texto alguém dentre as dezenas que levantaram os ombros e pensaram ''que cara maluco, devia estar chapado'', algum ser de divina compreensão e no alto de sua excelência intelectual, pelo menos um ser humano dentre 7 bilhões que poderiam acabar se deparando com as palavras digitadas, ao menos um infeliz entenderia sua linha de raciocínio caótica e aleijada de vírgulas.

Santa conivência!

O cenário continua correndo, rapidinho feito o 16x do vídeo. A música parece se adequar ao momento, e de uma forma realmente bizarra a cacofonia de barulhos urbanos acompanha em trilha cada pensamento de ódio, fadiga ou canseira. Odiamos todos  até que se prove o contrário por mérito de simpatia, consideramos o rebanho desnecessário além do próprio ciclo, esquecemos de pensar nos vários universos particulares. São bilhões de cabeças, bilhões de histórias.

Pouco me importa o além do horizonte, só posso ver até o fim da reta... se atrás da linha houver alguém pensando de forma carinhosa sobre mim e rezando para o meu bem, que estou do lado oposto, santificado seja o mesmo apesar da apatia continuar.

Digo amém para sua reza, independente de que fé seja. Só não me peça atenção, vou continuar concordando no automático por desinteresse, impaciência ou falta de vontade.

Mais um amém pro saco cheio de farinha, do pó viemos e para o pó retornaremos.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Salmoura

Deixou de molho em salmoura, morna e limpa toda a carapaça dura e inflexível. Parecia impossível amolecer, mas a falta de perspicácia para tratar assuntos inacabadamente perigosos fez milagre, e como.
O passageiro trevoso e triste observou de longe, no alto de sua imparcialidade. Não queria despertar suspeitas para um ou outro de que poderia voltar a qualquer momento, na verdade tinha medo de não conseguir passagem novamente.
Todo o olhar felino fazia gelar a espinha, ao mesmo tempo que a sinuosidade das curvas (bem feitas demais para quem come tanta porcaria) esquentava até quase o ponto de ebulição qualquer coisa que estivesse dentro do peito, inclusive o aclamado coração.

Tive medo de não conseguir novamente, mas nunca soube até agora exatamente o que.

Não, eu sabia sim, ou melhor: sei.

A carnavália foi usada de desculpa das mais esfarrapadas para reaproximar os sonhos. Todos sabiam, mesmo que ninguém quisesse declarar, mas no fim o ímpeto venceu o bom senso.
Aqueles dias haviam sido maravilhosos e despertaram fantasmas escabrosos ao serem relembrados. Mas tudo certo, não é todo dia que dois exemplos de cabeça dura se chocam até abrir fenda.

Em cada poro e espaço vazio dos corpos houve invasão, era uma onda reconfortante e perturbadora por sua força.

Tudo deu certo, como não poderia deixar de ser.

Saliva, suor, unhas e dentes, calor e umidade, pulsação de membros e de falta de membros, uma verdadeira bacanal de sentidos maliciosos. Toda a prolixidade dos discursos era feita por capricho e nada mais. Rebuscava-se as sentenças para impressionar, tanto um como outro, eram leitores frenéticos de literatura corpórea, aqueles textos lacinantes  e tão pessoais que tornam a vida de quem escreveu uma verdadeira epopéia.
Faltaram poucas linhas antes da noite acabar, mas a obra conseguiu ser terminada com o sol do dia seguinte, ainda envoltos de lençol, pêlos e cabelos, além é claro de alguns fluídos criadores de vida.
A saudade estava disfarçada esse tempo todo dentro da casca dura, de um e de outro. Ela vinha de peitos orgulhosos e bonitos e de olhos tristes por temporada.

Santa salmoura!

Seu jeito de ler obras intangíveis era fantástico aos olhos, o mestre deve realmente ter orgulho, eu mesmo tive. 
Descobrir a beleza de categorizar todo um relacionamento melodramático como dramaturgia, era tão óbvio antes que nem chegamos a cogitar a hipótese.
Mesmo cego como um morcego podia ver a quantidade exorbitante de sentimento investido. 
Não era a primeira vez que lhe escrevia sentimentalidades, mas era a estréia de um novo modo de sentir, muito mais certo de si.

Não ande descalça, não deixe de se secar, use os malditos óculos pra variar.

Dentro de calças feias e largas demais estava claro e óbvio o desejo que sentia, mas ainda assim não era mais libido do que carinho.
Provavelmente ao morder a língua sentiu culpa de não ter feito tudo o que podia, mas o outro lado estava declarando fim de jogo na época.

Passou, não poderia ter dado certo começando no dia da mentira. Claro que não foi uma data intencional e tão pouco havia superstição em seus corações, mas o peso simbólico acabou se fazendo presente.

"Temos todo o tempo do mundo" - era o que dizia o ídolo chato da parte felina, eu mesmo sempre achei sua arte supervalorizada, mas tenho que concordar com a citação.
O passageiro trevoso e triste resolveu tirar férias, se isolar num deserto junto de um dromedário morto e pouco mais de mil carros vermelhos, além de uma xota flutuante. Fique por aí, te pago um sanduíche e coca zero.

Pra bom entendedor nem sequer palavras são preciso.

Ah, o amor.

domingo, 13 de outubro de 2013

Pontas

Minha almofadinha que estava cheia de agulhas agora respira melhor! Que bom que cada pontinha acabou sendo útil, abrindo espaço pro ar passar e preencher o vazio.
Mil vezes pensando nas dores e bolores, o drama do momento era sempre mais melódico do que a harmonia realmente pedia e no fim o ar fez muitíssimo bem, obrigado. 
Afiadas, as pontas deixaram um verdadeiro queijo suíço, formigueiro, esponja... mas como o terreno era fofo e cheio de fé, esperança ou o almejo que o valha, tudo ficou bem.
Alguns fios soltos formaram um ninho de gato bem interessante, me senti uma criança brincando com linhas ou uma velha Parca tentando ler a sorte de um refrão que ainda não parecia estar nem perto de chegar, uma vez que a segunda estrofe estava ali quase pela terceira linha. Mas acho que é inevitável. A ordem natural das coisas manda os girinos se sentirem sapos, e é assim que a banda toca, de improviso.
Cargas d'agua que acabam sem um bom motivo, explicações mal contadas, conversa fiada pra cochilo bovino... Faz parte da "girinêz". Todo alto de duas estrofes mandando o maior fuzuê de responsabilidade moral, o círculo ali te cobrando mais conhecimento de causa do que você de fato vivenciou e você ainda lembra que costumava se sentir dono da própria venta quando não passava de uma linha e meia.
Quase duas longas horas depois de ter começado a pensar, acabo chegando a conclusão de que conclusões não servem mais do que cabides quebrados. Completa perda de tempo concluir o que quer que seja a respeito do que for, a relatividade vai acabar te comendo com farinha. Seria muita prepotencia acreditar em qualquer conversa regida por parcialidade.
Como fez bem essa história de pontadas, sério.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Bruxaria

Era uma Bruxa mas não era nem velha, nem feia e muitíssimo pelo contrário.
Sua vassoura não voava, mas varria como nenhuma outra, era uma ótima vassoura.
Varreu do mundo toda a tristeza que poderia existir no meu coração, limpou com maestria.
Num passe de mágica me transformou, fazendo valer seu título de Bruxa.
No quê?
Em tudo o que eu não era.
Me fez como se nunca tivesse sido feito, mas me criou para o mundo e não para ela.
Decidiu que talvez laranjas não fossem o bastante.
Insisti na ideia, talvez só precisasse se acostumar.
Eu sabia que seria difícil
Tentei ignorar, não deu certo.
Tentei ter raiva, não funcionou.
Tentei tudo o que poderia.
Ela, ele... isso não era muito importante, ele seria eu e ela seria uma projeção do que eu gostaria em qualquer ''ela''.
Amaldiçoaram toda e qualquer Bruxa que possa ter vivido na terra um dia.
Como chegou a ter tamanha ousadia? Criação devia ser coisa de Deus e só.
Não sei quem foi, pare de me perguntar ok?
Escureceu o mundo das ideias, parecia bruxaria... muito efeito pra pouco contato.
Temporada de caçada, as Bruxas não poderiam sobreviver, por mais amor que tivessem as próprias vidas ainda assim seria menor em quantidade do que a vontade de ver cabeças rolando.
Minha vontade?
Nossa.
Eu.
.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O formigueiro

E o formigueiro vai seguindo em fila
Cada formiga preocupada em ser eficiente
Não deixando a própria mente
Desviar toda a atenção
E em total dedicação
Sem perder motivação
Que cada uma exerce sua função
Equilibrando toda uma estrutura
Obstinadamente elas seguem ‘linha dura
Sem parar de trabalhar em nenhum momento
O tempo todo o formigueiro está em total funcionamento
E as cigarras invejosas, faceiras e egoístas
Estão todas se mordendo e observando pelo muro
Cantando em boemia sobre o trabalho duro
Tornando música o suor e todo o esforço tão maluco
Tentando distrair as formiguinhas na maldade
Mas elas se organizam e prosperam sua cidade
Cada uma importante em seu próprio cargo
União fazendo força, açúcar e mui trabalho
As cigarras fanfarronas agora até dão risada
Mas quando chegar o inverno vão estar numa enrascada

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Adoçante

Passou a vida escapando pelas beiradas
Toda oportunidade para cruzar a linha era válida
A beleza do pecado sempre foi admirável demais para ser saudável
O gosto era melhor apimentado com proibição
Mesmo que o destino não fosse dos melhores preferia a euforia da danação
Doce veneno: cristal branco, apetitoso, de dar água na boca do Kamikaze

O gosto de adoçante já não satisfazia
A verdade era doce, muito doce

Açúcar?

Não devem usar adoçante na composição da verdade
Talvez usem cobertura de vingança, aquela que se come fria
Cuidado com as lágrimas para que não acabe em agri-doce, me alertaram
O sabor parecia tão real que deu até sede
A mente ficou melada de mastigar a realidade açucarada
Dentes metafísicos, todos cheios de caries e sujeiras...

Mas e a mentira?
Essa sim é feita de sacarina, estévia ou o diabo que seja.


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Pulo



Pulou o mais alto que pôde, sem parar para analisar as dores que a queda poderia causar caso fosse mal sucedida.

''Bem melhor assim diga-se de passagem!'' - disse para si mesmo.

O pulo foi considerável, mas as mãos não tiveram mais do que vento pra apalpar, vento esse que no fim das contas era parte do céu que fora almejado antes do salto, ótimo então. 

Os músculos estremeceram durante breves segundos, logo que os pés voltaram a pisar no chão e a sensação ligeira e passageira de formigamento era o máximo! 

Pouquíssimo tempo, mas tempo o bastante para se sentir livre do peso inverso que o mundo fazia contra o corpo. 

Quanta leveza!

Que maravilha que era poder pular, tão singelo, tão bobo, tão subestimado.

Felizes mesmo são os paraquedistas e saltadores.

Pulou por que queria se sentir nas nuvens, estar mais perto do criador.

Criou algum espaço entre seu ‘Eu’ e todo o resto. 

Por menor que fosse o tempo, pôde se sentir livre de qualquer sentimento ou pensamento ruim que estivesse lhe atormentando.

Quanta leveza!

Nada mais seria preocupação, não haveria mais estresse ou dores de cabeça, não durante o salto.

Catapultas e estilingues, foguetes e aviões, helicópteros e pipas empinadas, saquinhos plásticos de supermercado, folhas, pássaros, borboletas, abelhas, insetos voadores...

O céu é tão imenso que dá até vertigem, infinito demais por falta de redundância.

Quanta leveza!

Depois do pulo, resolveu se sentar para admirar o céu.

Lindo.

Virou o pescoço o máximo que conseguiu antes de dar torcicolo e acabou caindo deitado.

Riu de si mesmo.

Vagou com os olhos carinhosamente por cada milímetro de azul que conseguiu.

Lembrou do roxo da noite e do laranja do amanhecer.

Sorriu com a lembrança.

Quanta leveza!

Se perdeu na vastidão da miragem e nunca mais se encontrou.

Ficou feliz em se perder no meio de tanta beleza.

Viveu para sempre, virou estrela.

Plim.

Platônico Observador

Toda luz do mundo parou pra te homenagear, meu Deus do céu!

Quanta luminosidade, que cores mais vibrantes, que sorriso mais carinhoso para com meus olhos. 

Seus pais estão de parabéns, sério.

Se destacou do resto mundo, parecia um letreiro neon de motel no meio do breu da madrugada: viva, acesa, chamativa. Pegou minha desenvoltura e fez dela picadinho, jogou numa peneira de buracos mínimos e desintegrou o resto na primeira jogada de cabelo! Nossa, fiquei sem fala... mas tudo certo, não conseguiria falar mesmo. Se falasse sairia engasgado e nervoso, meus quinze anos de volta na prática, que tensão.
De longe a beleza vai ser sempre bela, de perto pode ser que perca a mágica, não poderia arriscar. Talvez seja covardia, mas algumas musas devem ser só pra admiração. Tocar o bibelô trás a possibilidade de estragar a obra, difícil pensar em deteriorar a imagem da perfeição. Não preciso saber o que ela come, que horas vai dormir ou os palavrões que solta nos momentos de raiva, realmente não preciso. Prefiro imaginar a princesa dos meus sonhos, que não passarão de sonhos por puro egoísmo! Tudo isso pelo simples fato de que no meu mundinho paralelo particular nada seria contrário ao que acho maravilhoso e dificilmente você seria uma pessoa tão maravilhosa quanto é linda, prefiro não descobrir.

Pelo menos eu acho.