Enquanto a vida passa correndo pelo cenário, os movimentos de seus
olhos continuam lentos e cadenciados. É realmente muito frio no limbo
entre a sensata sobriedade e os ares altos de uma boa viagem. Enquanto
isso, acredito que cada um dos protagonistas, de cada uma das peças
improvisadas da vida, continua achando que sua estrela brilha mais do
que o próprio sol que o mantém aquecido.
Se enrolam em mantos de
vaidade e egocentrismo, sem prestar muita atenção que no fim, os tons de
verde só são variações de uma paleta de cores completamente limitada.
Afinal, se todos os caminhos que eu peguei já estavam para acontecer de
qualquer forma, só dependendo de reações minhas e nada menos do que
isso, qual o grande lance sobre individualidade?
Engraçado pensar no assunto.
Na
verdade, engraçado pensar e engraçado quem pensa sobre isso. Imagine
que ao olhar para o lado, você pode facilmente se deparar com um outro
antro de pensamentos e filosofias, um novo mundo, um universo inteiro
circulando dentro de um corpo físico biologicamente muitíssimo parecido
com o seu próprio corpo. A diferença entre nós todos, que somos tão
iguais, é gritante! Gritante a ponto de ensurdecer as melodias da
identificação.
Quem sou eu?
Quero ser eu mesmo ou quero ser tão bom como o outro? Ou talvez exatamente como o outro?
_Estacione na vaga da dúvida. Pare e sente, reflita e chegue a conclusão mais óbvia de todas as conclusões: Conclusão nenhuma.
Óbvio.
Óbvio
como a obviedade pode ser, dura como a realidade pode ser, baseada na
lei universal e irrevogável da relatividade absoluta de todos os pontos.
Relatividade na limitação abstrata, porém presente, que dita a regra de
que todas as alternativas são realmente possíveis por pelo menos um
percentual mínimo de chance, sendo assim então planejáveis, e por tanto
previsíveis.
Um nó realmente difícil de desatar acaba de nascer na cabeça.
Que cabeça?
Uma
semente de dúvida que foi plantada fundo e foi muito bem regada,
adubada por uma metralhadora de merda que ecoa por aí, vindo das mais
diversas bocas. Cresceu, cresceu e agigantou mais ainda, chegando
praticamente ao tamanho absurdo da falta de autoconfiança que um ser
humano capaz pode ter.
Como você pode deixar de confiar em si? Você sabe que é maior do que todo o resto? Todo o mundo?
Todo mundo é ou todo mundo sabe?
Mas
afinal de contas, você é protagonista do seu próprio seriado de TV (pra
não deixar de ser piegamente clichê), como pode o protagonista dar
errado e acabar mal na história?
POR MAIS QUE SE FODA,
NO FIM VAI TER UMA LIÇÃO DE MORAL LINDA, UM CASAMENTO E TODOS OS
PERSONAGENS DE TODAS AS TRAMAS REUNIDOS RINDO EM CÂMERA LENTA! EU SEI
QUE SIM, JÁ VI ISSO MILHARES DE VEZES OU PELO MENOS UMA VEZ POR ANO NO
FIM DA NOVELA.
CERTO?
certo.
Bom,
chegamos ao ponto crítico em que foram tantas flechadas de tantos lados
que o alvo vermelhobrancovermelhobrancovermelhobranco já está entupido
de pontas. Já não suporta mais pedaços de pau pontudos, críticas
construtivas, críticas infundadas, pitacos, conselhos ou café.
NÃO TEM ESPAÇO.
Nem
pra choro e nem pra vela! Chega de formigas no meu bolo, de colegas pro
meu pacote de bolacha ou de impostos para o dinheiro que eu ganho.
Chegamos
em uma hora realmente difícil, uma hora em que contar as horas é hábito
por ter que saber lidar com a distribuição das mesmas. Pouco tempo, pouco proveito, muita carga mas pouca carroça.
Falou
tudo o que quis, falei, falou sem dó e sem se importar com o sentido do
que quer que estivesse querendo dizer, falei. Sabia que no fim do texto
alguém dentre as dezenas que levantaram os ombros e pensaram ''que cara
maluco, devia estar chapado'', algum ser de divina compreensão e no
alto de sua excelência intelectual, pelo menos um ser humano dentre 7
bilhões que poderiam acabar se deparando com as palavras digitadas, ao
menos um infeliz entenderia sua linha de raciocínio caótica e aleijada
de vírgulas.
Santa conivência!
O cenário continua correndo, rapidinho feito o
16x do vídeo. A música parece se adequar ao momento, e de uma forma
realmente bizarra a cacofonia de barulhos urbanos acompanha em trilha
cada pensamento de ódio, fadiga ou canseira. Odiamos todos até que se
prove o contrário por mérito de simpatia, consideramos o rebanho
desnecessário além do próprio ciclo, esquecemos de pensar nos vários
universos particulares. São bilhões de cabeças, bilhões de histórias.
Pouco
me importa o além do horizonte, só posso ver até o fim da reta... se
atrás da linha houver alguém pensando de forma carinhosa sobre mim e
rezando para o meu bem, que estou do lado oposto, santificado seja o
mesmo apesar da apatia continuar.
Digo amém para sua
reza, independente de que fé seja. Só não me peça atenção, vou continuar
concordando no automático por desinteresse, impaciência ou falta de
vontade.
Mais um amém pro saco cheio de farinha, do pó viemos e para o pó retornaremos.
Quem sou eu? Essa pergunta deveria ser proibida porque é perniciosa, um caso de saúde pública, quem sou eu... E diria lá Fernando Pessoa: "Janelas do meu quarto, Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é (E se soubessem quem é, o que saberiam?). Acho que você transpira urbanidade, esse coisa luminosa - e quanto mais luminosa mais sobra há - sim, há sombra, há o sombrio no que você escreve, mas há aquilo que falta à nossa geração, a reflexão da vida real. Se nos distinguimos é dos velhos, justamente aí encontramos a nossa cruz: os velhos ao menos liam, refletiam e tinham posições, mesmo que duras e burras, mas as tinham, e nós? Você vem contribuindo para esse "nós" e para desfazer os nós que nos obriga a suportar um dia a dia mesquinho, pequeno, fútil. Acho que sou "pelo menos um ser humano dentre 7 bilhões que poderiam acabar se deparando com as palavras digitadas, ao menos um infeliz entenderia sua linha de raciocínio caótica e aleijada de vírgulas", e quantas virgulas, um labirinto, derrapemos nas cruvas da sintaxe, mas com a nossa propria gramatica! Parabéns!
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