A pior surra que se pode levar é a surra de palavras. O ouvido é o canal de entrada para o maior e mais dolorido tipo de enxurrada de golpes que a sua alma pode chegar a levar. É quando você recebe esse tipo de sova que se dá conta de que um dedo na quina da mesa, um murro espatifando o nariz ou mesmo uma perna quebrada não são lá grandes coisas.
Todo ser humano é fadado a vida que escolhe para si, mas além disso acaba levando o bônus de ter que lidar com a vida e sentimentos de outras pessoas. Já não é fácil viver pra si, muito longe disso no geral, mas ter que viver para outro alguém (ou outros alguéns) acaba inevitavelmente sendo mais complicado, e como a vida é resumidamente um punhado de dores e amores, doloroso também.
Os motivos para cada qual vão variar, mas invariavelmente as dores se fazem presentes. Algumas maiores que outras, mas sempre em sequência e nunca dando folga o suficiente para que se pense que já se está pronto para o próximo momento de sofrimento. Certamente que é por isso que se busca tanto o prazer imediato das substâncias, é tudo pela fuga. Sair da própria realidade por alguns instantes trás alívio, e se existe alguma coisa que uma criatura em dor precisa é de alívio.
Acontece de vez em quando entre alguns menos afortunados um esburacamento de essência, onde se formam valas na integridade da personalidade, fazendo ruir aos poucos (ou aos muitos dependendo do caso) a personalidade e a motivação de se ser o que se é. O desmotivo trás o questionamento sobre a própria existência e seus para quês e porquês e se já falta convicção no mundo para com as razões pelas quais o ser humano habita a terra, imagine o grau da catástrofe de um ser humano se sentindo inadequado a realidade já lisérgica e desmotivada da própria espécie.
Assim alguns procuram bons motivos para estarem vivos, sejam missões de vida, seja ajudar outras pessoas, seja a vontade de Deus, trabalhar, simplesmente viver por estar vivo... as razões são infindáveis, mas nenhuma chega a ser realmente palpável o bastante para o desmotivado, esse aí é uma criatura difícil. Quando o breve sopro de vida que lhe foi concedido deixa de ser aproveitamento para se tornar obrigação moral e ética para com os seus iguais e queridos, alguma coisa certamente está errada.
Questionamentos são naturais, é claro, a curiosidade é natural ao homem, mas com o questionamento incessante vem também o descontentamento com as falhas, e, ao reparar na quantidade e profundidade das falhas do mundo a tristeza chega e bate forte no peito. E daí nascem os poetas e filósofos, os pensadores, os músicos, os bêbados, os suicidas, os padres, os monges e eu, sempre refletindo mas nunca chegando em lugar nenhum.
Chegar onde afinal, se no fim das contas tudo o que construímos e criamos fica pra poeira?
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
...
Entre morcegos e abutres
os tucanos que me assustam
tanto quanto os petralhas
todos rindo feito gralhas
as hienas se fartando
da carne podre lá sobrando
enquanto todos nós formigas
reclamamos do que está faltando
carregamos nossas folhas
esperanças e desejos
as cigarras vão cantando
e as formigas trabalhando
a natureza afirmou
que o forte sobreviveria
mas que o fraco poderia
se tornar forte algum dia
quantas formigas são preciso
pra firmar bem os degraus
da escada imaginária
da realidade social
no fim, o discurso é hipnótico
as algemas é você que escolhe a cor
azul, vermelho, branco ou nulo
o poder de escolher sem mudar é todo seu
os tucanos que me assustam
tanto quanto os petralhas
todos rindo feito gralhas
as hienas se fartando
da carne podre lá sobrando
enquanto todos nós formigas
reclamamos do que está faltando
carregamos nossas folhas
esperanças e desejos
as cigarras vão cantando
e as formigas trabalhando
a natureza afirmou
que o forte sobreviveria
mas que o fraco poderia
se tornar forte algum dia
quantas formigas são preciso
pra firmar bem os degraus
da escada imaginária
da realidade social
no fim, o discurso é hipnótico
as algemas é você que escolhe a cor
azul, vermelho, branco ou nulo
o poder de escolher sem mudar é todo seu
terça-feira, 2 de setembro de 2014
Piada Mortal
''Lembra?
Oh, eu não faria isso. Lembrar é perigoso... eu vejo o
passado como um lugar cheio de ansiedade. O ‘’pretérito imperfeito’’, como você
chamaria. As memórias são traiçoeiras! Num momento você está perdido num
carnaval de prazeres, com o aroma da infância, os neons da puberdade. No outro
eles te levam a lugares onde a escuridão e o frio trazem a tona coisas que você
gostaria de esquecer.
Mas podemos viver sem elas? A razão se sustenta nelas. Não
encarar as memórias é o mesmo que negar a razão! Mas e daí? Quem nos obriga a
ser RACIONAIS?
Não há ‘’cláusula de sanidade’’!
Assim, quando você estiver dentro de um desagradável trem de
recordações, seguindo para lugares do seu passado onde o grito é insuportável,
lembre-se da loucura.
Loucura é a saída de emergência!
Você só precisa dar um passo para trás e fechar a porta com
todas aquelas coisas horríveis que aconteceram presas lá dentro, para sempre.
Tapar os olhos no trem fantasma não vale!
Ah, eu sei... você está confuso, apavorado... mas na sua
situação, quem não estaria? Sabe, apesar da vida ser um mar de rosas, você caiu
nos espinhos.
Quando o mundo está cheio de preocupações e todas as
manchetes gritam desespero, quando tudo é estupro, fome e guerra, bem... então
só há uma coisa certa a fazer:
Você deve sorrir!
Se começar a olhar as pessoas meio desconfiado, é sinal de
que está ficando inteiro pirado e tem mais! Se a barra estiver pesada, você
pode apelar pra uma cela acolchoada! Troque sua vida de agonia por uma cama e
injeções duas vezes ao dia! Ah, e não se esqueça... você deve ir sozinho e sem
medo! Quando o homem começar a se aniquilar, e as bombas caírem sem parar, e de
seu filho a face azul você vir, a melhor coisa a fazer é sorrir.
Se as pessoas não te compreenderem, não ligue. Vire as
costas, vá em frente, não brigue! Se disserem que você regula pouco, é porque
não sabem como é bom ser louco!
Isso é o que eu chamo de um trem fantasma!
Sabe, eu nunca boto a mão no fogo. Você tem que descobrir
isso no caminho das alucinações.
Senhoras e senhores! Vocês já o conheciam pelas manchetes
dos jornais! Agora tremam ao ver com seus próprios olhos o mais raro e trágico
dos mistérios da natureza! Apresento o HOMEM COMUM!
Físicamente ridículo, ele possui por outro lado, uma visão deturpada
de valores. Observem o seu repugnante senso de humanidade, a disforme
consciência social e o asqueroso otimismo. É mesmo de dar náuseas, não?
O mais repulsivo de tudo são suas frágeis e inúteis noções
de ordem e sanidade. Se for submetido a muita pressão, ele quebra! Então como
ele faz para viver? Como esse pobre e patético espécime sobrevive ao mundo
cruel e irracional de hoje? A triste resposta é: ‘’ Não muito bem!’’
Frente ao inegável fato de que a existência humana é louca,
casual e sem finalidade, um em cada oito deles fica piradinho! E quem pode culpa-los?
Num mundo psicótico como este, qualquer outra reação seria loucura!
Só é preciso um dia ruím para reduzir o mais são dos homens
a um lunático. Essa é a distância entre o mundo e eu... apenas um dia ruim.''
Texto declamado de forma majestosa pelo rei palhaço, O Coringa, na HQ ''A Piada Mortal'' escrita pelo grande Alan Moore e desenhada por Brian Bolland.
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
Lobo
O leite com chocolate
adoça minha boca
A lua está cheia
É uma pena que eu não possa me virar em lobo por conta disso
Fantástica a fantasia, hm?
Mamíferos sim, mas bem diferentes
O lobo pode ficar pelado
Correr o quanto queira por aí
Dormir quando lhe convém
Comer sem assar ou fritar
Comer o quanto quiser
Sem se preocupar com gordura trans ou se vai engordar
Uivar como se não houvesse amanhã
Quem vai reclamar ou chamar a polícia?
Não vai passar frio durante uma noite gelada
Pode sempre contar com os irmãos e semelhantes para tudo
Não vai ser morto sem um bom motivo por um semelhante
Ou roubado
Ou sequestrado
Também não passa grandes perrengues para achar uma parceira
Inclusive ao achar a parceira não vai ter dores de cabeça
por ciúmes e amenidades
Pode transar sem camisinha sem medo de ficar doente
Sem medo de não conseguir sustentar um filhote
Não vai ser morto sem um bom motivo por um semelhante
Ou dez
Não precisa prestar contas pra ninguém
Nem chefe
Nem Deus
Nem mãe
Nem esposa
O mundo é seu banheiro
O mundo é sua casa
A noite é sua
Dificilmente vai simplesmente adoecer
Mas também quando morrer não vai fazer seus queridos
chorarem
Lobos são fortes
Ser um lobo deve mesmo ser demais
Mas o lobo não tem chocolate no leite, nem quando é lobinho
Pobre lobo.
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
Pressa
Feito carne crua e nua
Desmedida
Ferro e fogo
Pau, pedra e fim do caminho
Eu sou a sombra
Você é o chão
Os gritos são mudos
Os olhos são cegos
O pulmão absorve pouco menos do que deveria
As mãos se contraem
As unhas chegam a cravar nas palmas
Tensão
Tesão
Desconforto
Minha consciência diz que tenho que me apressar
Uma voz chata
Aguda
Insistente
Persistente
Paro
Parar é como chacinar a voz
Risadas
Minhas?
segunda-feira, 19 de maio de 2014
Oração
Antes de tudo, agradeço.
Senhor da onisapiência e pai de todas as potências, eu te peço pra trazer
Paz, calma, amor e humildade, pra afastar toda maldade de perto de mim
Ao arquiteto das naçōes e ao criador das emoçōes, eu imploro que traga
Paciência e coragem e que me tire a vaidade do peito
Sei que não passei muito tempo conversando contigo
Mas acho que o criador deve ver na criatura um amigo
Talvez a minha ideia de você esteja toda errada
Mas sinto que enquanto houver sol ainda vou ter estradas
Para trilhar, para sonhar, para seguir e para me sentir pra frente
E sempre consciente de que o maior dos meus erros não foi nada pra você
Em dias de sede, faz chover
Em dias de luta, faz vencer
Em dias de choro, faz parar
Em dias de luto, faz passar
E mesmo quando eu não quiser acreditar em nada, e acredite vai acontecer, não se vá por favor
Por mais que eu odeie admitir, também preciso.
Obrigado pelos pássaros.
quarta-feira, 5 de março de 2014
..
Embonequei minhas melhores intenções nas palavras mais difíceis que pude pensar em usar, quis parecer grandioso e sábio, um poeta.
Empoemei todas as receitas de bolo que achei pela frente, não bastasse o açúcar naturalmente utilizado no preparo das guloseimas, ainda por cima adociquei tudo com minhas próprias palavras meladas.
Resolvi que não poderia escrever escorrido feito macarrão, separaria bloquinhos de frases sem pontuação para que parecesse mais artístico.
Nada de vomitar textos, pensaria no sentido do que gostaria de trazer a tona para quem quer que fosse ler, me prepararia para ser artista, sexo só com camisinha.
Além de tudo, achei que seria de bom gosto rimar: falar sobre céu e mar, sobre os afazeres do lar, sobre querer me jogar no infinito solar do sorriso molar de uma jovem que me fez parar e pensar em como é bom amar.
Me senti tosco, completamente perdido em exatidão, uniformidade, padrão, café com pão, arroz com feijão na casa do João.
Amaldiçoei as rimas rimando sem querer.
Mordi a língua.
O sangue empapou as maldições, mas tudo bem, elas já tinham seu destino certo e a força do pensamento já trabalhava como cúmplice de qualquer forma.
A língua latejava.
De certo que tentava se equiparar a cabeça, que estava se fervilhando de tanto desejar a prolixidade pra si, pobre coitada.
Doeu!
Sem chances para loucuras desmedidas de paixões caóticas, sem chance para mais palavrões, sem chance para monotonia desvairada, doeu mesmo, sério!
É o tipo de coisa que precisa acontecer ao menos uma vez na vida de todo aspirante do que quer que seja: a dor da desilusão, a clareza da verdade nua e crua aos olhos tristes da frustração. Isso te faz pensar e repensar.
Pensar é bom... planejar é bom, executar com perfeição é bom, cinza é bom, ordem é bom, organização é bom, regras são boas... Quero ser bom, afinal ser bom é bom... certo?
Desisti de tentar ser o que quer que fosse, bom ou ruim, poesia é um saco mesmo.
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