quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Salmoura

Deixou de molho em salmoura, morna e limpa toda a carapaça dura e inflexível. Parecia impossível amolecer, mas a falta de perspicácia para tratar assuntos inacabadamente perigosos fez milagre, e como.
O passageiro trevoso e triste observou de longe, no alto de sua imparcialidade. Não queria despertar suspeitas para um ou outro de que poderia voltar a qualquer momento, na verdade tinha medo de não conseguir passagem novamente.
Todo o olhar felino fazia gelar a espinha, ao mesmo tempo que a sinuosidade das curvas (bem feitas demais para quem come tanta porcaria) esquentava até quase o ponto de ebulição qualquer coisa que estivesse dentro do peito, inclusive o aclamado coração.

Tive medo de não conseguir novamente, mas nunca soube até agora exatamente o que.

Não, eu sabia sim, ou melhor: sei.

A carnavália foi usada de desculpa das mais esfarrapadas para reaproximar os sonhos. Todos sabiam, mesmo que ninguém quisesse declarar, mas no fim o ímpeto venceu o bom senso.
Aqueles dias haviam sido maravilhosos e despertaram fantasmas escabrosos ao serem relembrados. Mas tudo certo, não é todo dia que dois exemplos de cabeça dura se chocam até abrir fenda.

Em cada poro e espaço vazio dos corpos houve invasão, era uma onda reconfortante e perturbadora por sua força.

Tudo deu certo, como não poderia deixar de ser.

Saliva, suor, unhas e dentes, calor e umidade, pulsação de membros e de falta de membros, uma verdadeira bacanal de sentidos maliciosos. Toda a prolixidade dos discursos era feita por capricho e nada mais. Rebuscava-se as sentenças para impressionar, tanto um como outro, eram leitores frenéticos de literatura corpórea, aqueles textos lacinantes  e tão pessoais que tornam a vida de quem escreveu uma verdadeira epopéia.
Faltaram poucas linhas antes da noite acabar, mas a obra conseguiu ser terminada com o sol do dia seguinte, ainda envoltos de lençol, pêlos e cabelos, além é claro de alguns fluídos criadores de vida.
A saudade estava disfarçada esse tempo todo dentro da casca dura, de um e de outro. Ela vinha de peitos orgulhosos e bonitos e de olhos tristes por temporada.

Santa salmoura!

Seu jeito de ler obras intangíveis era fantástico aos olhos, o mestre deve realmente ter orgulho, eu mesmo tive. 
Descobrir a beleza de categorizar todo um relacionamento melodramático como dramaturgia, era tão óbvio antes que nem chegamos a cogitar a hipótese.
Mesmo cego como um morcego podia ver a quantidade exorbitante de sentimento investido. 
Não era a primeira vez que lhe escrevia sentimentalidades, mas era a estréia de um novo modo de sentir, muito mais certo de si.

Não ande descalça, não deixe de se secar, use os malditos óculos pra variar.

Dentro de calças feias e largas demais estava claro e óbvio o desejo que sentia, mas ainda assim não era mais libido do que carinho.
Provavelmente ao morder a língua sentiu culpa de não ter feito tudo o que podia, mas o outro lado estava declarando fim de jogo na época.

Passou, não poderia ter dado certo começando no dia da mentira. Claro que não foi uma data intencional e tão pouco havia superstição em seus corações, mas o peso simbólico acabou se fazendo presente.

"Temos todo o tempo do mundo" - era o que dizia o ídolo chato da parte felina, eu mesmo sempre achei sua arte supervalorizada, mas tenho que concordar com a citação.
O passageiro trevoso e triste resolveu tirar férias, se isolar num deserto junto de um dromedário morto e pouco mais de mil carros vermelhos, além de uma xota flutuante. Fique por aí, te pago um sanduíche e coca zero.

Pra bom entendedor nem sequer palavras são preciso.

Ah, o amor.

domingo, 13 de outubro de 2013

Pontas

Minha almofadinha que estava cheia de agulhas agora respira melhor! Que bom que cada pontinha acabou sendo útil, abrindo espaço pro ar passar e preencher o vazio.
Mil vezes pensando nas dores e bolores, o drama do momento era sempre mais melódico do que a harmonia realmente pedia e no fim o ar fez muitíssimo bem, obrigado. 
Afiadas, as pontas deixaram um verdadeiro queijo suíço, formigueiro, esponja... mas como o terreno era fofo e cheio de fé, esperança ou o almejo que o valha, tudo ficou bem.
Alguns fios soltos formaram um ninho de gato bem interessante, me senti uma criança brincando com linhas ou uma velha Parca tentando ler a sorte de um refrão que ainda não parecia estar nem perto de chegar, uma vez que a segunda estrofe estava ali quase pela terceira linha. Mas acho que é inevitável. A ordem natural das coisas manda os girinos se sentirem sapos, e é assim que a banda toca, de improviso.
Cargas d'agua que acabam sem um bom motivo, explicações mal contadas, conversa fiada pra cochilo bovino... Faz parte da "girinêz". Todo alto de duas estrofes mandando o maior fuzuê de responsabilidade moral, o círculo ali te cobrando mais conhecimento de causa do que você de fato vivenciou e você ainda lembra que costumava se sentir dono da própria venta quando não passava de uma linha e meia.
Quase duas longas horas depois de ter começado a pensar, acabo chegando a conclusão de que conclusões não servem mais do que cabides quebrados. Completa perda de tempo concluir o que quer que seja a respeito do que for, a relatividade vai acabar te comendo com farinha. Seria muita prepotencia acreditar em qualquer conversa regida por parcialidade.
Como fez bem essa história de pontadas, sério.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Bruxaria

Era uma Bruxa mas não era nem velha, nem feia e muitíssimo pelo contrário.
Sua vassoura não voava, mas varria como nenhuma outra, era uma ótima vassoura.
Varreu do mundo toda a tristeza que poderia existir no meu coração, limpou com maestria.
Num passe de mágica me transformou, fazendo valer seu título de Bruxa.
No quê?
Em tudo o que eu não era.
Me fez como se nunca tivesse sido feito, mas me criou para o mundo e não para ela.
Decidiu que talvez laranjas não fossem o bastante.
Insisti na ideia, talvez só precisasse se acostumar.
Eu sabia que seria difícil
Tentei ignorar, não deu certo.
Tentei ter raiva, não funcionou.
Tentei tudo o que poderia.
Ela, ele... isso não era muito importante, ele seria eu e ela seria uma projeção do que eu gostaria em qualquer ''ela''.
Amaldiçoaram toda e qualquer Bruxa que possa ter vivido na terra um dia.
Como chegou a ter tamanha ousadia? Criação devia ser coisa de Deus e só.
Não sei quem foi, pare de me perguntar ok?
Escureceu o mundo das ideias, parecia bruxaria... muito efeito pra pouco contato.
Temporada de caçada, as Bruxas não poderiam sobreviver, por mais amor que tivessem as próprias vidas ainda assim seria menor em quantidade do que a vontade de ver cabeças rolando.
Minha vontade?
Nossa.
Eu.
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