quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O formigueiro

E o formigueiro vai seguindo em fila
Cada formiga preocupada em ser eficiente
Não deixando a própria mente
Desviar toda a atenção
E em total dedicação
Sem perder motivação
Que cada uma exerce sua função
Equilibrando toda uma estrutura
Obstinadamente elas seguem ‘linha dura
Sem parar de trabalhar em nenhum momento
O tempo todo o formigueiro está em total funcionamento
E as cigarras invejosas, faceiras e egoístas
Estão todas se mordendo e observando pelo muro
Cantando em boemia sobre o trabalho duro
Tornando música o suor e todo o esforço tão maluco
Tentando distrair as formiguinhas na maldade
Mas elas se organizam e prosperam sua cidade
Cada uma importante em seu próprio cargo
União fazendo força, açúcar e mui trabalho
As cigarras fanfarronas agora até dão risada
Mas quando chegar o inverno vão estar numa enrascada

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Adoçante

Passou a vida escapando pelas beiradas
Toda oportunidade para cruzar a linha era válida
A beleza do pecado sempre foi admirável demais para ser saudável
O gosto era melhor apimentado com proibição
Mesmo que o destino não fosse dos melhores preferia a euforia da danação
Doce veneno: cristal branco, apetitoso, de dar água na boca do Kamikaze

O gosto de adoçante já não satisfazia
A verdade era doce, muito doce

Açúcar?

Não devem usar adoçante na composição da verdade
Talvez usem cobertura de vingança, aquela que se come fria
Cuidado com as lágrimas para que não acabe em agri-doce, me alertaram
O sabor parecia tão real que deu até sede
A mente ficou melada de mastigar a realidade açucarada
Dentes metafísicos, todos cheios de caries e sujeiras...

Mas e a mentira?
Essa sim é feita de sacarina, estévia ou o diabo que seja.


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Pulo



Pulou o mais alto que pôde, sem parar para analisar as dores que a queda poderia causar caso fosse mal sucedida.

''Bem melhor assim diga-se de passagem!'' - disse para si mesmo.

O pulo foi considerável, mas as mãos não tiveram mais do que vento pra apalpar, vento esse que no fim das contas era parte do céu que fora almejado antes do salto, ótimo então. 

Os músculos estremeceram durante breves segundos, logo que os pés voltaram a pisar no chão e a sensação ligeira e passageira de formigamento era o máximo! 

Pouquíssimo tempo, mas tempo o bastante para se sentir livre do peso inverso que o mundo fazia contra o corpo. 

Quanta leveza!

Que maravilha que era poder pular, tão singelo, tão bobo, tão subestimado.

Felizes mesmo são os paraquedistas e saltadores.

Pulou por que queria se sentir nas nuvens, estar mais perto do criador.

Criou algum espaço entre seu ‘Eu’ e todo o resto. 

Por menor que fosse o tempo, pôde se sentir livre de qualquer sentimento ou pensamento ruim que estivesse lhe atormentando.

Quanta leveza!

Nada mais seria preocupação, não haveria mais estresse ou dores de cabeça, não durante o salto.

Catapultas e estilingues, foguetes e aviões, helicópteros e pipas empinadas, saquinhos plásticos de supermercado, folhas, pássaros, borboletas, abelhas, insetos voadores...

O céu é tão imenso que dá até vertigem, infinito demais por falta de redundância.

Quanta leveza!

Depois do pulo, resolveu se sentar para admirar o céu.

Lindo.

Virou o pescoço o máximo que conseguiu antes de dar torcicolo e acabou caindo deitado.

Riu de si mesmo.

Vagou com os olhos carinhosamente por cada milímetro de azul que conseguiu.

Lembrou do roxo da noite e do laranja do amanhecer.

Sorriu com a lembrança.

Quanta leveza!

Se perdeu na vastidão da miragem e nunca mais se encontrou.

Ficou feliz em se perder no meio de tanta beleza.

Viveu para sempre, virou estrela.

Plim.

Platônico Observador

Toda luz do mundo parou pra te homenagear, meu Deus do céu!

Quanta luminosidade, que cores mais vibrantes, que sorriso mais carinhoso para com meus olhos. 

Seus pais estão de parabéns, sério.

Se destacou do resto mundo, parecia um letreiro neon de motel no meio do breu da madrugada: viva, acesa, chamativa. Pegou minha desenvoltura e fez dela picadinho, jogou numa peneira de buracos mínimos e desintegrou o resto na primeira jogada de cabelo! Nossa, fiquei sem fala... mas tudo certo, não conseguiria falar mesmo. Se falasse sairia engasgado e nervoso, meus quinze anos de volta na prática, que tensão.
De longe a beleza vai ser sempre bela, de perto pode ser que perca a mágica, não poderia arriscar. Talvez seja covardia, mas algumas musas devem ser só pra admiração. Tocar o bibelô trás a possibilidade de estragar a obra, difícil pensar em deteriorar a imagem da perfeição. Não preciso saber o que ela come, que horas vai dormir ou os palavrões que solta nos momentos de raiva, realmente não preciso. Prefiro imaginar a princesa dos meus sonhos, que não passarão de sonhos por puro egoísmo! Tudo isso pelo simples fato de que no meu mundinho paralelo particular nada seria contrário ao que acho maravilhoso e dificilmente você seria uma pessoa tão maravilhosa quanto é linda, prefiro não descobrir.

Pelo menos eu acho.


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Balão

Larguei sua mão

Te vi correndo para lá

Ali que não é muito cá

O vento veio me lembrar

Que deixei nosso balão voar


Cortou o céu

Feito papel

Rasgou o dedo, Fez sangrar


Jorrar vermelho no meu peito

Manchar a vida de um jeito

Impregnado de saudade

Fez gritar para a cidade toda

Tornar em som a nossa louca

História de romance e dor


Balão voou e me largou

Solitário e cheio de água salgada

Rolando a maçã e molhando a barba

Botando o sorriso em curva tombada


Lavando o céu

Limpando tudo

Mas o sangue insiste em ficar


Pintando meu peito de vermelho

Manchando a vida do mesmo  jeito

Impregnado de saudade

Berrando pra toda cidade

Gritando a agonia do amor

Nossa história é de romance e dor

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Carne indigesta

Você já me disse muita coisa, e isso foi de extrema confusão. Pensei em ficar quieto e fingir que não via, mas achei que seria deselegante. Meu interesse carnal vai existir sempre, sou homem e não posso negar isso, mas não acho justo te desrespeitar a ponto de responder as suas mensgens e insinuações desavergonhadas a altura, muito menos propor qualquer tipo de coisa. 
Que bom que você tem boas lembranças dessa nossa historia, fico realmente feliz, mas a menos que você pretenda despertar meu lado mais sacana de propósito, o lado que não vai estar ligando a mínima pro além de uma cama e quatro paredes, acho melhor que você não se insinue mais tão descaradamente. 
Arranco meus olhos antes de querer enxergar suas curvas novamente, não por falta de libido, mas por saber dos efeitos venenosos e catastróficos que poderiam ocorrer com o reencontro de nossas carnes.
No fim me conformei com a ideia de que fomos apenas passageiros na vida um do outro. Mesmo que na horizontal a química nos inflamasse, na vertical jamais daria certo. Amor e paixão se destinguem no preparar da carne: Amor é lentamente cozido no vapor, paixão é na chapa quente e tão bem passado que quase vira carvão. Vou lembrar de nós sempre com gosto de queimado e cheiro de fumaça.

Concha

Foi mastigado e engolido, no fim até conchinha rolou, e essa fez com que se sentisse namorado por alguns instantes. Era solteiro por opção, mas a sensação era de alívio. Para um eterno carente é sempre bom ter momentos de carícia. A solidão voltou depois de pouco tempo, mais gelada que sorvete.
Ao anoitecer, sozinho e pensante como de costume, não tardou a pegar-se devaneando a respeito dos motivos. Acidentalmente pegou-se então perplexo com a falta deles. Revirando os olhos voltou a pensar. Um ciclo vicioso havia se instalado em sua vida desde que a cabeça passara a funcionar por si própria:

Significado, deleite, vazio, resignificação, ascendência, sorrisos, significado, deleite, vazio de novo.

Se manteve arisco frente ao passado recente, saudoso frente ao passado antigo e receoso frente ao futuro. Não queria muito parar pra pensar, mas sua cabeça era vítima constante de violências subjetivas, violentando a paz de sua cabeça vazia por autoimposição. Era um bombardeio deprimente de ideias mistas, entre as geniais e as completamente sem nexo estavam as confusões de sempre.
Atordoado e sonolento ele continuou vagando sem rumo pelo mundo das ideias, coletando aqui e ali alguma inspiração que prestasse. Ao juntar palavras emperiquitadas com uma maneira charmosa de ordená-las, fez da sua cama um harém, sempre na esperança de uma nova conchinha. Conchas por conchas, sabia onde estava a pérola da sua, mas não poderia sequestrá-la, não dessa vez, teria que ser natural e mágico.

Que as estúpidas Parcas tecelãs fizessem um bom trabalho, essa era a prece da vez.