sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Luz

A velha senhora cega estava impaciente com a falta de sono de seus netos, resolveu contar-lhes uma história que pudesse acalmar seus ânimos. Eles pediram para que ela contasse sobre sua cegueira, sempre foram curiosos a esse respeito:

 ''A pequena Luz tinha agora sete anos e desde que se recordava era cega como um morcego. Parecia maldade seu nome de batismo, talvez uma piada de muito mau gosto, mas os pais só descobriram sua cegueira dias depois de seu nascimento. A visão em si nunca lhe fez falta, mas toda sua família ajoelhava em preces todos os dias para que seus pequenos olhos funcionassem normalmente.
 A pequena garota era amada demais por todos que a conheciam, tinha sempre um sorriso no rosto redondo e palavras doces para quem tivesse ouvidos. Era bonita como uma boneca de porcelana e delicada como uma flor, além de ser muitíssimo inteligente para sua idade.
 Ela vivia em um lugarejo afastado da urbanização, tudo ao seu redor tinha cheiro de natureza e gosto de natural. Mesmo sem poder enxergar, Luz gostava de passear ao ar livre durante as tardes. Como não estudava no colégio, por falta de estrutura do mesmo, pedia para que a mãe lesse todo material disponível na biblioteca que fosse possível. Era uma menina interessada por tudo, a curiosidade era sua maior característica, e sua maior paixão era a música.
 Num dia de cantoria descompromissada, fez com que a melodia doce de sua voz se espalhasse pelos quatro cantos do mundo. Não era volume, mas a pureza que contaminava todo o ar de toda a terra. Impressionantemente  sua voz chegou a lugares mais altos do que castelos e mais longínquos do que a  China, foi escutada por quem precisava ouvir.
 Um dia apareceu um velho corcunda na cidade, fora guiado pela cantoria. Ele tinha um ar sábio apesar de uma aparência maltrapilha. Como a casa da menina era a primeira vista do lugar, logo na entrada da cidade, foi lá que ele bateu.
 Foi muito bem recebido pela família, eles eram humildes e não tinham muito dinheiro, mas hospitaleiros com certeza seriam sempre, lema da casa. Serviram-lhe sopa, prepararam-lhe um banho quente e lhe deram roupas novas de presente, ''um andarilho esfarrapado não seria bem recebido na cidade'' eles disseram para o homem.
 Comovido com a recepção calorosa dos desconhecidos, o homem corcunda resolveu lhes conceder um desejo, apesar de não pronunciar o milagre. Eles nem mesmo haviam lhe contado sobre a filha cega, que no momento estava colhendo frutas com os irmãos, mas o homem era maior do que as palavras e conseguiu ler seus corações. Viu que apesar da vida simples e feliz que tinham, também carregavam a tristeza como inquilina permanente da casa.
 Feiticeiro que era, em silêncio e de olhos fechados enxergou a menina iluminada. Num piscar de olhos fez com que ela pudesse ver com mais clareza do que todos os outros. No momento seguinte, já de estômago cheio e roupas novas ele se despediu e seguiu seu caminho. Não queria glorificação, apenas fez o que tinha de fazer, estava ali para isso afinal.
 Do outro lado da cidade, a menina tomou um susto com toda a luz que surgiu de repente e caiu no chão, ralando todo o joelho. Foi inundada de cor e informação visual, não sabia definir o que era o quê e isso lhe deixou atordoada demais. Desmaiou, e então foi carregada para casa pelos irmãos assustados...''

_ Certo vovó, mas se você foi curada... não sei se entendi. Você ainda é cega! - exclamou o mais velho.
_ Bem, você não me deixou terminar. - disse a velha paciente.
_ Mas eu quero saber o final logo! - respondeu o garoto.
_ Bem.. acho que seus irmãos dormiram. Posso te adiantar a história, mas depois você vai dormir, certo? - a velha Luz ainda era perspicaz. Sua audição era maravilhosa, permitira-lhe escutar os roncos baixos dos outros dois meninos.
_ Tudo bem, mas me diga logo, poxa vida. - o menino estava impaciente.
_ Pois bem então.. - e a velha contou o que tinha acontecido.

Horas depois, já passando da meia-noite, o menino ainda estava acordado. Ele rezava assustado, não queria dormir para não correr o perigo de sonhar com o velho feiticeiro corcunda. Devia saber que sua avó de mau humor não seria uma boa contadora de histórias bonitas, ainda mais se tratando da senhora mais amargurada e ranzinza de toda a cidadezinha. Passou a vida toda depois desse dia se lembrando das últimas frases que a avó disse antes de sair do quarto arrastando os pés:

'' O mundo é lindo quando você não precisa saber de sua feiura. Preferi o escuro confortável depois de passar anos vendo quão macabras as coisas eram. Botei meus olhos para namorarem com um punhal, já havia visto o suficiente.''

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Atchim...

Não me venha com votos de saúde, não agora
Espirro palavras, escarro frases, vomito angústias
Gosto de aproveitar a doença das letras
Por para fora as ideias e conflitos que engasguem
Não morro sufocado por palavras
Aprendi a burlar a lei do silêncio
Definitivamente não morro sufocado por ideias
Questão de honra, ou não me chamo Valentim
Se não disse todas elas, pelo menos escrevi boa parte
Se não escrevi e nem falei, pelo menos cantei
Se nem ao menos cantei, então pensei
Se pensei, sei que disse para mim mesmo
Palavras e mais palavras
Quantas letras, quantos sentimentos
Quantas histórias, quantos momentos
A culpa fica pra escanteio, agradei a quem queria
O melhor público do mundo
Um por todos e eu por mim
Só.


O Vestido e a Lama

Vestido longo, se arrastando pela avenida molhada de chuva e suja de terra.

A lama estuprou violentamente a pureza branca do traje matrimonial, que dó. Aquele vestido havia sido escolhido a dedo e agora estava arruinado. Pedaços de pano estavam espalhados pelo chão imundo, afinal, depois de sujo e maltrapilho por escolha consciente, a noiva resolveu fazer picote de seus sonhos e planos, rasgando o vestido em pedaços, toda a extensão da calda até a altura dos joelhos.
Os olhos se mantiveram imaculados na doçura, em expressão se mantinham firmes, já em estética estavam péssimos: Todo aquele caminhão de maquiagem havia borrado com as gotas gorduchas da chuva, o resultado era visivelmente catastrófico. O sorriso, como a expressão do olhar, se manteve o mesmo desde o altar até o momento desesperador da rasgação, terno e confortável à vista. Os cabelos embaraçados e cheios de arroz recém jogado, sua cabeça era uma plantação de cereais e ideias perturbadoras.

Engraçado como dependendo da situação a mesma expressão facial pode indicar normalidade ou psicopatia.

Junto aos restos sujismundos de vestido espalhados pelo chão, estavam os vários nomes de amigas solteiras, fadadas agora ao fracasso lamacento emocional. Todas as que apostaram sorrisos e votos de boa sorte agora estavam envoltas da energia negra da desistência. Nenhuma tinha culpa, e na verdade poucas delas saberiam do ocorrido. Era uma questão intima, mas todas estavam ali, jogadas na lama e de conchinha com os sonhos desfalecidos.

Sonhos encharcados e sujos de terra.

A noiva era uma figurante bizarra na cena. O foco estava para os finalmentes, dando pouca ou nenhuma importância aos motivos. Era uma mulher na flor da idade, sendo regada pela tristeza apócrifa da incerteza, abandonando as vigas de sustentação da própria existência, entrando de cabeça na maiêutica socrática, procurando sua liberdade na raiz do questionamento, buscando redenção e principalmente limpeza na tempestade mais próxima, que afinal sempre serviu para lavar a alma.

Prefiro ser viúva de um sonho do que noiva de um aprisionamento. Não tiro o mérito da conquista de meu amado mal amado, mas me faltaria liberdade para sorrir flertando em direção aos outros rapazes, ou para me engalfinhar em amassos maliciosos com outros ''eles ou elas'', ou ambos juntos, três, quatro, dez... quem liga? Fato é que não estou pronta para ''sermos'' quando ainda nem ''sou'' direito.

Lembrou do amor passado, o carinho encheu o peito, que esvaziou mais rápido ainda. Acordou no momento seguinte, transpirava e respirava pesado. Suas mandíbulas estavam contraídas e doloridas demais, o pesadelo havia causado isso. Pânico ao pensar na possibilidade belíssima de estar livre da obrigação, ter que escolher uma boa resposta entre ''sim'' , ''com certeza'' e ''sem dúvidas''.
Seu corpo escultural ainda estava amarronzado da lama. O inconsciente havia sido confortável durante as horas de desmaio, será que aceitariam uma inquilina irrequieta de volta?

''Adeus mundo cruel'' - ela disse então, e saiu marchando, avassalando a vida, atropelando os padrões, arrombando os portões, tratando com crueldade a vida que até então fora cruel, simplesmente por ter sido comum.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Acho que...

PÔ, não acho nada.

Eu já ia ''achar'' alguma coisa, mas resolvi não ''achar'' coisa alguma. No mundo já tem tanto ''achista'' que o tal ''achismo'' já está ficando chato, repetitivo, enfadonho... Mesmo quem ''acha'' baseado em outros ''achares'', por mais embasados que sejam, ainda acaba sendo só mais um saco cheio de ''achismos''.

Acho que...

Particularmente ''acho'' que ''achar'' já está se tornando (faz bastante tempo) uma grande e tediosa palhaçada.

Palhaços, circo, parece bom.

Não por ser engraçado e divertido, mas por ser vulgar e colorido demais.

Poxa, que saco.

Muita cor nas bochechas ''achistas'', inflamadas de afirmação ''achadamente'' contundente. Muita vulgaridade nos ''achares'' espalhafatosos, dos que ''acham'' que sabem demais por terem lido ou visto mais ou menos filmes ou livros.

Mas eu não acho, tenho certeza!


A ''certeza'' que anda numa crise existencial horrenda, está realmente chateada.

Ops..

Crise essa pelo fato do título ''certeza'' ser só uma ridícula promoção do famoso ''acho'' para um concretismo da famigerada cabeçadurísse, o que convenhamos, não é lá uma das melhores formas de existir.

É, de fato...

Já a ''dúvida'' anda em alta, cúmplice e fiel escudeira do ''achar'', está sempre pairando nas cabeças por aí, inclusive na minha.

E a convicção, a quantas anda?

Vai de mal a pior, afundando num bote furado num mar de incertezas e ''achismos'' vazios.

Você está realmente acabado, cara.

Eu sei.

Previsibilidade Dual

Gritei tão alto que os olhos saíram das órbitas por meio instante, quase ninguém escutou. Não foi com a garganta que berrei, mas sim com o pensamento, isso justifica a falta de público. Brado interminável e furioso, com direito a eco subconsciente, fazendo vibrar os portões energéticos e os pontos acupunturistas.
Foi do fundo do peito, afiado por pedaços pontiagudos e angulosos de um coração quebrado, lixados no bom e velho 'pedra contra pedra'.
Tudo em volta até então era ensurdecedor, e eu precisava que o mundo se calasse pelo menos por alguns minutos. Então gritei sem dó, para rebater os outros vários barulhos infernais que insistiam em não calar por vontade própria. Alguém precisava botar ordem no galinheiro emocional, certo?
Não foi educado e pomposo como de costume. Notei que o resto se assustou, e isso me deixou contente de certa forma. O vermelho e o branco, vulgo resto, ficaram mudos e perplexos, boquiabridos com tal ato de revolta. Afinal de contas, eu havia passado a vida toda dando ouvidos para um ou para outro, ninguém esperava um surto no meio do caminho, nem eu e nem eles.
O ''sim'' e o ''não'' sempre foram as opções cabíveis e viáveis, sem direito nenhum a qualquer tipo de meio termo, eu estava cansado disso. Chifres ou auréolas, asas brancas ou pretas, yin ou yang, DC ou Marvel, Playstation ou Nintendo, céu ou inferno... haja saco.
O limbo parecia libertador de uma maneira bizarra, purgatório por excelência ou por falta de vontade em seguir um caminho tão pragmaticamente programado. Toda dualidade do mundo se tornou maçante pela falta de opção. Sendo mais coerente na afirmativa, retifico: Milhões de caminhos, mas finais reduzidos ao dual.

Qual o problema afinal em ser por ser, sem se preocupar com o enquadramento? Onde fica a beleza do talvez? Não saber com certeza absoluta é crime? Pecado?

O espírito clama por liberdade, que só é livre até a página dois. Complicado sim, por ''A'' mais ''B'', e nem cogite outra letra qualquer do alfabeto, a menos que tenha um par oposto pra oferecer. O refrão repete, pra não ficar só na primeira vez, e que se mantenha em números divisíveis por dois. Pule sete ondas no ano novo para se rebelar contra a inocência cristã do seis ou do oito. Seja reto nos caminhos ou ande torto até o tormento.
O mundo pede em suas preces por mais reticências e vírgulas! O caminho fica realmente entediante quando é corrido e sem pontuação, mas principalmente quando é previsível. O plural é idealizado como perfeito, por isso o singular está sempre em depressão. A arte está na tristeza de ser só, por mais rondado de gente que se esteja. Bonito mesmo é ser sozinho e tristonho. Por isso torço pelos artistas, e principalmente torço mesquinhamente para que eu mesmo não acabe me estereotipando na categoria.

Melhor burro acompanhado do que inteligente solitário.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Leite Derramado

E o leite derramado já está quase coalhando. Criou uma poça gigantesca de sujeira láctea, que manchou uma vida inteira, e nem todos os litros d'água salgada que os olhos produziram foram suficientes para lavar tudo. Leite denso, espesso e branco, que embranquece toda história e apaga toda boa memória.
Depois do leite veio o resto: a vida foi passando devagar, em marcha realmente lenta. O leite foi ficando cada vez menos fresco na memória e a vida foi seguindo seu rumo despreocupadamente. Seguiu e seguiu, até chegar ao gosto de café, vida adulta. A mancha continuava lá, intacta e intangível, tornando o gole preto num marrom Pingado.
E mesmo que as borboletas tivessem seguido por outros caminhos, a ordem das coisas não poderia ter sido vista por outros ângulos. A teoria do caos se mostrou vigorosa e empapada de litros infindáveis de leite semi-desnatado, botando em ordem todas as coisas de forma desconexa, porém precisa. Não foi preciso engordar sadicamente as partes feias e traumáticas da existência, e por isso digo Amém! Além dos sapatos perigarem rasgar o solado, em caso de demasiada engorda, o leite derramado por si só já fez o serviço de impressionar pela pureza do branco infinito, cor de nada. Então o semi-desnatado serviu bem, inquestionável.
Incapacidade de ver além de dois palmos frente ao nariz, esse ainda é o maior defeito de qualquer ser humano que se preze. Talvez por isso o leite não seja tecnicamente ''limpável'', a cegueira sempre nos impede de enxergar os caminhos para a higiene emocional. A impossibilidade de empatizar com o ser humano que erra, acaba tornando o dedo acusador num juiz irracional, sem mãe, pai ou amor que valha um sorriso no rosto.
Cristificando o homem que sabe perdoar, acabamos esquecendo da capacidade de interpretar também o personagem que com nobreza consegue compreender falhas. O simbolismo da santidade é, acima de tudo, santo por saber perdoar e esquecer. Religiosidades a parte, mesmo um espinho que fosse enterrado com brutalidade na santa testa poderia ser esquecido no momento seguinte, tudo em nome de um amor maior, o fraternal.
A poça branca no fim se tornou inevitavelmente mancha, ficou lá para lembrar do erro. A lágrima realmente não serviu para lavar bulhufas, e as borboletas não puderam voltar o tempo. Mais branco do que leite derramado é um sorriso sincero, que constrói com dentes de tijolo alvo estradas mais longas do que o alcance de qualquer maré láctea de desastre.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Sabor.

Tratou com desdém e falso desprezo o calor selvagem do amor sem barreiras, aquele descompromissado e sem maiores explicações. Amor sim, se já havia sido antes então não poderia mais deixar de ser, pelo menos de acordo com sua vã filosofia de boteco.
O tal do sentimento transformou-se em alguma coisa inominável, não havia amizade ou fraternidade, só o carinho da lembrança, que não era suficiente para instigar conversas maiores do que as baseadas em alfinetes e provocações.
As memórias que restaram do passado recente foram predominantemente carnais e desprovidas de sensibilidade. Talvez a natureza da relação anterior não fosse das mais saudáveis afinal. Tudo não passou de um flash rápido e desavergonhado, claro como a luz fervilhante do meio-dia, que mostrava sem dó nem piedade cada traço marcado, manchado, arranhado, mordido... era sempre sobre o corpo e o que se podia aproveitar dele, e isso nunca seria o suficiente.
Seu corpo era recipiente, mais meio vazio do que meio cheio e um brinde aos pessimistas. Precisava completar-se com mais do que sangue e suor, já que a vulgaridade, apesar de ser um de seus talentos natos, não era o campeão dentre suas predileções. Gostava do amor romântico e patético, do platônico e desesperado... amava amar.
Enganou-se desde o inicio, provavelmente sabendo do erro que estava cometendo. Estava se enganando de forma lúcida, dentre os enganos o mais perigoso.
As apostas sempre foram de tiros no escuro, baseadas única e exclusivamente no fervor dos primeiros olhares. Um grande erro para um devoto e declarado fã de olhos bonitos, fossem da cor ou formato que fossem, e esse erro lhe custou e voltaria a lhe custar várias noites em claro, várias delas.
Toda fruta mordida a partir de então acabaria tornando em nostalgia o suco natural, inundando o paladar com o sabor doce e indescritível da mulher, fruta por excelência. Toda brisa e garoa a partir de então se tornaria em lembrança de como é a mulher, que como o tempo é sempre imprevisível e difícil de lidar... nunca se está preparado o bastante. Toda embriaguez a partir de então seria memorável pela dor de consciência póstuma, como as dores de cabeça que vem junto com a ideia de compromisso, lindo no começo, bonito no meio, horrível no final.

Relógiando e Rápido.

O relógio segue, inimigo dos afazeres e lazeres, relativo como tudo que diz respeito ao tempo: Lento para os que só querem chegar ao conforto de suas casas, rápido para os que tem compromissos. É uma pedra no sapato do cotidiano, mais um sapo pra engolir em uma dieta já baseada quase que exclusivamente de anfíbios. Faça render suas míseras vinte e quatro horas ou morra tentando.



segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A Melancolia D'ela, Resquícios de Sujeira

Deitou a cabeça no primeiro ombro que achou vago, os olhos deitaram lágrimas também e transformaram o mesmo ombro em  um bom tanto de tecido molhado. A camiseta se arruinou em água salgada, como que para combinar com o coração em ruínas. Era um alguém qualquer, servindo de poste para apoio, todos precisam de apoio afinal de contas, principalmente depois da primeira derrota. Recompensaria o infeliz com palavras vazias do tipo ''não sei o que eu faria sem você'' ou coisa do gênero - era mentira pura, simplesmente acharia outro ombro qualquer se não o achasse antes.
A melancolia veio bem a calhar nos momentos de embriaguez que se seguiram, e embriaguez que se preze trouxe consigo a inconveniência. A humilhação autoimposta veio em fases: Primeiro o ataque nervoso, depois a ilusão do contentamento e por fim a depressão pós mágica. A nova felicidade viria logo em seguida, pelo menos é o que estava no contrato. O mundo parou o giro nos três quartos finais do final feliz, ela não era capaz de lidar com isso.

Parecia quase combinado, o tempo vagarosamente se espreguiçou enquanto tudo acontecia.

Sofreu em silêncio inverso, gritando ao mundo falsa felicidade e contentamento. Ela não estava acostumada a perder e até então o mundo era seu quintal. Até onde a vista alcançasse tudo era flor e beleza nos campos injustos da vida sentimental e amorosa, que se mostrou traiçoeira e cheia de má fé. Tentou incessantemente culpar o pobre miserável, procurou enxergar trevas onde não existia escuro além de tons grafite... quase chegou a acreditar numa verdade alternativa e confortável, mas seu discernimento era maior que isso, o que piorava a melancolia.

''Como pôde acontecer? A entrega foi completa! Me expus, me doei... inteira.''

Ela não entendeu que ele fez o melhor que pôde. Ele lamentava os machucados que havia causado, e como lamentava.

''Desde quando lamentação cura ferida?''

Sentia o peso da responsabilidade, toda a instabilidade dela era sua culpa e ele sabia. Sabia também que não ajudaria em nada se manter bonito e presente, a solidariedade seria venenosa, então preferiu se ausentar em blocos de gelo. Se disfarçou de esquimó e foi frio o quanto conseguiu: ''melhor que me odeie do que me ame sofrendo''. - Não parecia certo, mas a relatividade da resposta era ensurdecedora, a pergunta era vaga demais! Gritava alto, principalmente devido ao fato de que o que à feriu foi a verdade pura, e não existe justiça maior do que isso.

A verdade é que nunca houve mentira, e quando o que deveria ser ''para sempre'' se tornou um ponto final, tudo ficou feio e putrefaço.

Ela viveu então o resto de seus dias, ele viveu os dele. Não houveram mais sorrisos trocados entre ambos, os olhares foram para sempre resumidos a espiadelas. Ela voltou a ser feliz, ele continuou tentando achar seu caminho, não sei se consegui.

Suja.

''Comigo você pode ser suja, verdadeira, intensa...'' - respondeu mentalmente. A indagação havia sido feita em palavras escritas, nada mais justo do que responder em palavras imaginárias.

Entorna toda a perversão acumulada em seu corpo e me faz alvo
Me molha de suor e me arranca sangue na unha, me encharca no dilúvio do orgasmo
Deixa o ambiente com cheiro de paixão consumada, sem vergonhas ou pudores
Vem para o meu leito e encarne mais um dos meus mil amores
Entre os cúmplices para o crime do pecado carnal, estarão além de nós, mais quatro paredes brancas e curiosas
Quatro mudos fetichistas, escravos do voyeurismo, observadores complacentes
Luz acesa, olhos nos olhos, olhos também  no resto que não enxerga, por que não?
Quente.. fervendo em pressão, deixando brancas as pontas dos dedos... é o toque.
Gosto de quero mais, o não querendo ser sim da forma mais descarada possível
A cama não se contentou em ficar bagunçada sozinha, o quarto virou história
Vítima de uma guerra passional, onde o bom samaritanismo lutou feroz contra a ideia do usar e abusar
Conscientemente aconteceu um apocalipse físico, deleite total
Mas no resumo da história aconteceu diferente e o lema acabou sendo:

 ''me ensina a solidão de ser só dois''

No fim foi só isso, que apesar de muito, não foi dos mais maiores
O coração que geralmente é ator principal resolveu ser coadjuvante, não quis se envolver e resolveu ir tomar um sorvete na padaria... o sabor ninguém nunca soube.

sábado, 17 de agosto de 2013

O Silêncio

O silêncio andava depressivo, e pedia em voz muda para que lhe concedecem alguma atenção. Ao menos alguns momentos, mesmo que fossem poucos. No meio da harmonia caótica comum dos barulhos corriqueiros do mundo, os mesmos que se unem em prol da perturbação e enlouquecimento, o silêncio era negligenciado.

Por mais que agitasse seus braços transparentes, por mais que protestasse em revolta completa, armasse placas e cartazes ou letreiros neon... sempre passava desapercebido.
Enquanto acontecia um terrorismo sonoro e a cacofonia se tornava trilha habitual, enquanto rolava a fusão acidental de todas as menores e maiores frequências e ondas, o silêncio chorava em prantos. Ele foi criado em teoria, mas não passou disso, e viveu durante muito tempo como um fantasma em busca de vida corpórea.

Ao calar da noite, que só cala os mais barulhentos, o silêncio vagou de cabeça baixa. Nas bocas fechadas, as mesmas que não permitem a entrada de moscas, o silêncio descansou de olhos abertos. Em linhas vazias de partituras em potencial, no botão Mute do controle remoto, na opção vibrar do celular, na intenção do discurso apelante do vizinho velho e ranzinza, na vida dos surdos por deficiência ou acidente, no dedo indicador frente ao nariz, na onomatopéia ''shhhh'', em todo canto ele procurou ser notado, mas continuou sendo ignorado.

Um dia o silêncio adotou para si o rótulo da impossibilidade, e fez com que o mundo o enxergasse como lenda. O desafio de invoca-lo fez-se então existente, tornando o título de Mito do Silêncio uma fábula das mais fantásticas. A responsabilidade mítica e folclórica era agora uma verdade, e muito mais confortável com sua posição hierárquica, o silêncio teve a contentação que tanto almejou.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Azul

Cor de blues, meio pentatônico no olhar
Jeitinho anil, meio tímido, meio frio
Agasalha no sorriso, que esquenta mas nem tanto
Um jeito engraçado de pronunciar, destaques de entonação

''Leite quente que dói os dente''

Peculiar, curioso, observador, exótico
Chama mais atenção do que gostaria?
Interessante, talvez até demais.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A Balaclave

E a minha balaclava de tanta melodia e som bonito que escutou, acabou que se tornou balaclave, indecisa porém sobre a nota que iria sustentar. Talvez sol, talvez dó, talvez fá... não importa. Continuará sendo máscara ou mesmo capacete, tomando para si as pancadas rotineiras e doloridas, sendo escudo por falta de lança ou espada.
 
Proteção por notas jogadas e compassos mal formados, tempos quebrados, como todo relógio que se digna a bater alarme na hora simbólica de sempre. Barreira melódica, meio melodramática quando se arrisca pelas terras da literatura, meio melancólica ao se enquadrar tão bem nas dores da defesa. É tanto melô que acaba melando toda a ideia dura e tensa que existe acerca da linha de frente, tornando-a então grudenta e pouco usual. Imputaqueoparívelmente cai por terra toda a famigerada proteção balaclávica, e se me permite dizer: que os escudos vão para os quintos dos infernos!
Sem escudos e maiores defesas a balaclave entrou em greve e se recusou a melodiar. Sua inspiração até então foram as pancadas que recebeu na vida, Musas ingratas. Ao invés de soprar cantorias preferiu cuspir gritos e desordenações caóticas, ensurdecendo o mundo com desarmonia e desafinação, em escalas dissonantes até para a música mais atonal e experimental possível.

_Meu Deus, parem com a cacofonia! - exclamou o Querubim, que era criança ou anjo, ninguém sabia dizer com certeza absoluta. - por falta de motivos para cantar, te presenteio com o dom da tristeza por pesar, e mesmo quando só tiveres motivos para rir, mesmo nos momentos mais contentes e felizes, ainda assim vais pensar nos males alheios e irá toma-los para si. O Conforto não fará mais parte de sua vida, sem chances. Toda e qualquer chance de sorriso virá carregada num fardo imenso de agonia. Sentirá a dor aguda de cada coração de cada pessoa que lhe pousar os olhos. Fará de qualquer sentimento, seu ou não seu, seja ruim ou seja bom.. qualquer alarde que vier de qualquer peito, tudo será música para seu diafragma e sua cabeça. Assim como tudo será música para meus ouvidos, consequentemente para todos os outros ouvidos, bem treinados ou não, tudo será motivo para que sua voz saia afinada, cheia de vontade e inspiração. Essa é sua maldição ou sua bênção, a única certeza é que o fato se categoriza como sina, e tudo só depende de você e da bendita relatividade do seu SER.

Encarei da forma que pude, acho que não tive escolha, ou melhor, não tenho. Tomei para mim o trovadorismo e passei a transformar o 'pensar' num 'cantar', mesmo que meio sem jeito. Vomitei ideias de todos os tipos, timbrando palavras em cantigas sem pé nem cabeça, soltei o ar e assobiei afinado demais, mas acho que não tive escolha, ou melhor, não tenho.
Eis que me mandam por psicografia uma ou outra mensagem desconfortável, ás vezes até músicas inteiras, textos e fragmentos, tais como:

''Apolo veio acompanhando um Dionísio embriagado, rumavam à Terra, juntos e enamorados em paixão sórdida e fugaz. Deram de presente ao mundo o primeiro fruto de união homo-erótica, existiu então a Boêmia, que fez da felicidade popular sua maior missão, e para isso desmembrou-se em pontos de luz sobre pessoas distintas, que não teriam direito a momentos de paz. Os artistas então se tornaram uma classe em ascensão, fazendo de sua dor um orgasmo para o bom entendedor. ''

Falar em tom narcisista já se torna impossível, por mais íntima que seja a mensagem. As pessoas vão se enxergando no meio de interpretações pessoais, descabidas ou não, continuam a se procurar em cada linha escrita. As palavras ludibriam o ego sem vergonha de cada um que queira prestar atenção no que lê, escuta ou admira.

A Balaclave está de volta ao seu devido lugar, tomando pancada atrás de pancada, tornando o baque em canção. Máscara de chumbo, cabeça de telhado... no fim é tudo a mesma coisa.


sábado, 10 de agosto de 2013

Sobre as Flores e os Dentes

Pra recolher um botão de sorriso do seu rosto de jardim
Eu que sou jardineiro de dentes e tártaro
Vou regar a sua vida de alegrias e belezas
Adubar a sua cabeça de certezas
Só pra ver florescer sua coleção de ossos expostos
O seu jardim vai crescer
E o seu futuro vai ser só girassol
Perfumando o mundo com fragrância iluminada
Amarelo de ouro, cheio de esplendor
Afastando e lutando contra toda dor
Mordiscando a vida saborosa 
Tornando todo amor em prosa
Explodindo em aroma conciliante
Todo homem que vivia em choro constante
Observando espalhar
Sentindo polinizar
Espalhando a beleza e a fartura da mesa
Embriagando e molhando o rapaz descontente
Tornando a moça em mulher
Sorvendo seu hálito quente
Semeando gentileza, bondade e afeto
Pro rico, pro pobre e até pro sem teto
O aroma não muda, é a pele quem dita
Se o cheiro é bom, se a fragrância é rica
Ao colher seu sorriso repleto de dentes
Ofereço ao mundo meu pequeno buquê
Compartilho, portanto redobro e espalho
Alegria, melodia e resposta aos porquês.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Tempo

O relógio correu como havia prometido, e seus ponteiros afiados cortaram nossas possibilidades sem misericórdia. Deixamos as marcações passarem desapercebidas, flertando com os dias, fingindo que eram apenas alguns minutos, jogando o tempo pela janela. Fizemos pouco do pouco tempo, sem questionar o pouco tempo que tivemos antes disso.

Corremos desesperados das possibilidades

Morremos na praia antes de entrar no mar

Pensamos demais, agimos de menos

Será que o tempo vai continuar firme assim?

Não volta, mas por desencargo de consciência eu peço:

_ Volte!

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Erros/Acertos

Embranqueço suas madeixas com minhas loucuras
Loucuras inevitáveis para mim, mechas brancas inevitáveis para você
Sou errado, inteiro ou quase
Você também é
Juntos somos certos
Ou pelo menos mais certos do que separados, é o que importa
Em nossos erros acertamos juntos

Não existiria eu sem existir você
E por um erro tático do destino eu posso SER
Erro que talvez seja mais acerto do que qualquer acerto proposital

Hoje eu sei que para você, não existe pensar na possibilidade de que poderia não ter errado
Inaceitável, impensável, indizível  
Poderia ter sido diferente, talvez melhor, talvez pior
Mas foi como foi para que fôssemos

Somos juntos, não poderíamos ser separados
Se não fôssemos juntos então não seriamos
Sou o erro inicial e que mudou de título
Você, para mim é o acerto desde que errou
Que vai continuar errando para acertar
Que vou continuar errando para acertar

Mesmo acertando sei que vou continuar arrecadando mais fios para a sua Alvidez 
Orgulhoso do fato de que fui pelo foi
Feliz não pelo fato de Ser, mas sim pelo fato de SERMOS

Hoje sou acerto, ou quero ser
Só pra que se orgulhe do seu ''erro''
Mas sei que se eu continuar errando, ainda assim serei motivo de orgulho
Obrigado por ter errado, eu te amo.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Me Recuso


Engraçado, como pensa o homem racional que de razão tem tão pouco
Tanto se contradiz tentando ser social
Ter olheiras, se tornou praticamente um mérito
Espaço vago na agenda, é um pecado estratosférico
É tão normal, criticar quem foge do que é tradicional
Mas a loucura, é procurada pra lazer habitual
Homem bexiga, que estoura por pressão
Não se permite relaxar, sem antes ter qualquer tipo de obrigação
No momento em que o sujeito poderia relaxar e descansar
Prefere ficar doido, enlouquecer, se entorpecer e chapar...
Vivendo em seu mundinho abafado por fones de ouvido
Cercado de celulares, computadores, televisões, propagandas
Sendo bombardeado por informação conveniente
Logo se repara o olhar triste e a cara de acabado
Parece quase certo que o homem se esqueceu do gosto do sucesso emocional
E já não faz questão de ser feliz
Sorrindo a custo de nada
Pagando para viver
Indo dormir pra esquecer
Não se permitindo sonhar
Rezando para que acabe o quanto antes
O dia, o periodo, o ano
Só crê depois de ver
Chora sem soluçar
Ama sem saber porque
Respira por respirar
O ar parece pesado demais

Eu me recuso terminantemente a querer crescer
Eu me recuso a complacência
Eu me recuso ao otimismo cego
Eu me recuso, não quero começar e já saber do fim.



Ode às Ex-namoradas

Essa é a Ode às ex-namoradas
Que um dia foram hoje, mas que hoje não são mais (ai ai)
Eu bem queria que tivesse sido de outro jeito...
Mas acabamos em pretérito imperfeito

Desde que comecei a me apaixonar
Tornei o meu peito maior do que o mar
E assim como o mar está cheio de peixe
O meu coração também tem muito enfeite

Se posso ou consigo chama-la de Ela
Já me pré-disponho a querer diversão
E faço bom uso da tal piscadela
Ou o meu sentimento que é mu-u-ito barato
Ou será que isso é pu-u-ra falta de tato?

Eu fiz das moças mais bonitas da cidade
Mesmo que eu ainda não tivesse idade
Se tornaram minhas musas de inspiração
Falar bonito e chegar no pé do ouvido
Não preciso de Cupido, nem de bença ou unção

Dizer ''eu te amo'' nunca foi minha mentira
Já amei outras tantas aí pela vida
Sei que ainda vou amar outras vezes
Em alguns dias, uns anos ou meses

Exclusividade, não é o meu forte
Quero provar do sul até a zona norte
Quem pensa pequeno se perde no trilho
Não tenho vergonha de ser seu amigo

E para todas que já foram do meu time
Desejo um futuro tão sublime, sorte no amor e sucesso também
Eu não poderia querer de nenhum outro jeito
Meu passado só é tão perfeito, porque tem um pouco de você

A boêmia me fez apaixonar pela folia
Ver que toda mulher é poesia e transformar a curva em melodia
Mas se por um acaso eu achar a pessoa ideal
Me entrego em embrulho e lacinho de natal

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A Máscara

Todas as outras máscaras explodiram ao entrar em contato com a culpa, que era pontiaguda e certeira no baque, mas a dele não. Ele usava uma máscara do chumbo mais pesado e duro que já existiu, era implacável, dura demais, inquebrável e inquestionável, grande, forjada no desespero sem medida, na angústia, na mentira, no ódio secreto por todos os sorrisos espalhados por aí.

Engraçado pensar que seu trabalho auto-imposto era, de certa forma e parcialmente, justamente "fazer as pessoas sorrirem". Além disso, dicotômico como tudo em sua vida, também fazia as pessoas enxergarem problemas e pensarem com as próprias cabeças, choque de realidade com poesia e melodia, era o bonito avassalando o concreto, e ele gostava disso. Pensava sempre um passo a frente, mas vivia alguns passos atrás, longe, observando. Era capaz de entender todas as dores, secar todas as lágrimas de todas as pessoas e ainda usar palavras ricas e inusitadas para o consolo das lamúrias alheias, mas o problema consigo mesmo era bem maior.

Pensar em ajudar a si mesmo era como entrar num labirinto cujo chão fosse areia movediça, era perder tempo e vitalidade, não valia a pena. Preferia pensar em como ajudar os outros, e se conseguisse, ainda poderia continuar odiando seus sorrisos.

Sua maldita máscara, pesava como o chumbo que era e abafava o som de qualquer pedido de socorro que pudesse surgir vindo de dentro. Era bonita e simpática, com sua curva de sorriso moldada de forma quase natural... mas era um fardo venenoso e auto-imune. Matava devagar, discretamente, engolindo a realidade do ser e enterrando o pobre homem em concreto teatral. Não que houvesse de fato qualquer pedido de socorro, mas apesar de dolorido consciente, o homem da máscara intransponível tinha complexo de mártir e assim sofria por que precisava. Jamais gritaria por ajuda, essa é a verdade. Bem que ele queria ter a posse de uma máscara de vidro como todos os outros, mas cada Cristo nasce com a cruz que aguenta carregar.

Além disso tudo, em contrapartida, a arte agradava e era admirada mesmo sob todo peso do chumbo, ele mergulhava de cabeça nessa daí. A tal da arte trazia o conforto da ideia de que "o espinho e a flor podem conviver numa boa, de forma equilibrada" - era um alívio...

Num desses mergulhos acabou afundando pelo peso da cabeça e nunca mais voltou. 

Amém.

Mesmo que dolorosa de usar e pesada demais, a máscara agora era colorida e cheia de versos, por debaixo dela, existia um meio sorriso, ou pelo menos um bom sorriso em potencial, o que já seria um bom começo.

domingo, 4 de agosto de 2013

..

Reconhecimento é a maior recompensa que um artista pode querer, independente de qualquer coisa. Por mais que dinheiro seja importantíssimo, nem o maior bocado de vinténs reunido poderia pagar um elogio sincero para um trabalho duro e suado.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O Caos e a Ordem

O caos gerava ordem, engraçado como é difícil cuidar de si mesmo. Enquanto eu estive ''tocando o puteiro'' , me mantinha estável, sem maiores problemas além da falta de disposição, meu corpo havia se acostumado com a minha forma venenosa e descuidada de viver. Estava me matando aos poucos, até o momento final de explosão. Eis que quase morro, e então resolvo cuidar da minha saúde de uma maneira menos suicida. Agora eu como melhor, durmo melhor e faço uso correto da medicação, o corpo está se acostumando e a transição é muito maluca.

Complicado.

Mas bom, acho que vai valer os frutos e me possibilitar um futuro. Bom né?

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Ela

Ela era surpreendentemente selvagem e feroz na arte do amor, como um lobo na pele de um cordeiro no sentido mais literal da expressão. Seus olhos comedores de homem e suas unhas mais afiadas que adagas contrastavam com sua aparência singela. Aparentava ser mais nova do que sua idade sugeria. Ela era quente e cheia de vontade, desejo, paixão. Sua pele esquentava com a mesma facilidade que gasolina pega fogo.


Ele nunca teria reparado nela, a menos que tivesse sido forçado como foi, e a partir dali ela se tornou mais um norte para um homem desnorteado pelo excesso.

O Encantador de Pássaros.

Sua roupa era toda verde, provavelmente não tenha sido de propósito, mas acabou calhando de combinar com todo o verde do cenário a sua volta. Um rapaz singelo, de expressão serena. O forma como estava parado fazia parecer que o mundo estava em paz, e que ninguém teria problemas maiores do que olhar pela janela e respirar um ar meio quente demais para a época do ano. Parado, olhando para as folhas que variavam no tom de verde, não se tocou de que era observado, achei melhor assim. Ao lado do banco de madeira velha estava uma gaiola, com um pequeno pássaro. Pensei:
''- Cara, qual o sentido de manter o bicho preso?''
Enquanto eu observava a cena curiosamente, o rapaz de expressão serena e roupa verde observava os outros pássaros livres, voando por entre as árvores. Pegou um cigarro e se sentou distraído. Abriu a gaiola e estendeu a mão para o pequeno voador, que sem medo subiu pelo seu braço até o ombro e ficou ali, parado.
''- Cara, o pássaro é amigo dele.'' - pensei.
Enquanto o pequeno voador estava parado em seu ombro, o rapaz acariciou de leve sua cabeça. Fiquei bobo de ver e resolvi voltar para casa. Pensei comigo mesmo que talvez os outros pássaros fossem seus amigos também.